Nova trincheira na Europa: como partidos tradicionais de Portugal correm para barrar avanço da direita radical na eleição presidencialNova trincheira na Europa: como partidos tradicionais de Portugal correm para barrar avanço da direita radical na eleição presidencial
André Ventura é o candidato da direita radical em Portugal, com discurso anti-imigração e ataques a minorias
Anadolu via Getty Images (BBC)
Já virou uma constante no calendário político europeu. Sempre que um país vai às urnas, o resto do continente prende a respiração, com as mesmas perguntas em mente: a direita radical vai crescer desta vez? Se sim, quanto?
O segundo turno das eleições presidenciais em Portugal, marcado para este domingo (8/2), não é uma exceção.
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A votação acontece com o país em estado de “calamidade pública”, em meio a uma onda de fortes tempestades que já provocou mais de dez mortes e danos significativos, sobretudo na região central do país.
Disputam a Presidência António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), que fez campanha apelando ao voto moderado, e André Ventura, líder do Chega, da direita radical, que concorreu com um discurso anti-imigração, além de ataques a grupos minoritários — como a comunidade cigana — e às elites políticas tradicionais.
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As chances de vitória de Ventura são consideradas remotas. Segundo o agregador de pesquisas do jornal digital Observador, 32,6% dos eleitores pretendem votar nele, contra 67,4% que indicam apoio a Seguro.
A grande incógnita, porém, é qual será o patamar da votação do líder do Chega, algo que pode fazer toda a diferença no cenário pós-eleitoral.
Cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil observam que, se as pesquisas se confirmarem, Ventura terá superado os 31,2% obtidos pela atual coligação governista de centro-direita, a Aliança Democrática (AD), nas eleições legislativas de 2025.
“Se Ventura ultrapassar os 32%, terá base para afirmar que agora é a principal força da direita em Portugal”, diz António Costa Pinto, da Universidade Lusófona de Lisboa.
Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa, nota que, embora Portugal tenha entrado mais tarde na onda de crescimento da direita radical na Europa, o avanço no país foi surpreendentemente rápido. O Chega saltou de 1,3% dos votos em 2019 para 22,8% nas legislativas de 2025.
“Em outros países, o crescimento foi mais gradual, com a direita radical ganhando força pouco a pouco após a crise de 2008”, afirma Lisi.
“O Chega é um dos partidos que mais ampliou sua base na Europa nos últimos anos. E esse crescimento pode se consolidar com as eleições presidenciais, mesmo em um cenário de derrota para Ventura.”
Seguro venceu o primeiro turno da eleição presidencial com 31,1% dos votos, contra 23,5% de Ventura, impulsionado pelo voto útil da esquerda.
Mas, enquanto os candidatos derrotados de centro e centro-direita somaram cerca de 40% dos votos, os da esquerda não ultrapassaram 5%.
De olho nesse eleitorado conservador, Ventura tentou se apresentar como herdeiro natural desse campo político.
A estratégia, porém, esbarrou em uma série de declarações públicas de apoio a Seguro por figuras proeminentes da direita e centro-direita portuguesa.
André Ventura e Antonio Seguro disputam o segundo turno das eleições para presidente em Portugal neste domingo (8/2)
AFP via Getty Images (BBC)
Apoio conservador
Entre os que respaldaram o candidato socialista, estão Aníbal Cavaco Silva, presidente entre 2006 e 2016 e primeiro-ministro entre 1985 e 1995.
Também estão os prefeitos de Lisboa, Carlos Moedas, e do Porto, Pedro Duarte, ambos do Partido Social Democrata (PSD), que lidera a coalizão governista; além de Paulo Portas, ex-líder do CDS–PP, outro partido da AD.
Luís Marques Mendes, candidato apoiado pelo PSD no primeiro turno, afirmou ao jornal Expresso que votaria em Seguro por seu alinhamento com a “defesa da democracia” e a “moderação política”.
O primeiro-ministro Luís Montenegro, no entanto, rejeitou que o PSD declarasse apoio oficial a qualquer candidato.
Segundo analistas ouvidos pela BBC, o respaldo de conservadores ao candidato socialista se explica por ao menos três fatores.
Para começar, trata-se de uma tentativa de criar um “cordão sanitário” para conter o avanço da direita radical, reafirmando o compromisso da centro-direita com valores democráticos.
A estratégia não é nova: na França, em 2017 e 2022, políticos tradicionais se uniram para barrar a vitória de Marine Le Pen na corrida presidencial; e, na Alemanha, forças políticas mantêm um acordo informal para isolar a Alternativa para a Alemanha (AfD), que em 2025 obteve 152 dos 630 assentos do Parlamento.
O risco da estratégia de “cordão sanitário”, contudo, é reforçar a narrativa de Ventura de que ele seria o único representante legítimo da direita, já que todo o establishment político estaria unido contra ele, como observa Pedro Magalhães, da Universidade de Lisboa.
“Até por isso o PSD não declarou apoio formal a Seguro. Foram todas iniciativas individuais.”
O segundo motivo para o apoio a Seguro é o fato de ele ser visto como uma figura centrista e moderada.
António José Seguro é ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS) e tem conquistado apoio de conservadores por ser visto como figura moderada na política
Getty Images via BBC
“Embora ex-líder do PS, Seguro se lançou na campanha sem apoio formal desse partido, recebido apenas tardiamente e sem grande entusiasmo. Além disso, ele é conhecido por, durante a crise da zona do euro (2008/2009), ter apoiado medidas adotadas pela centro-direita”, lembra a cientista política Marina Costa Lobo, também da Universidade de Lisboa.
Para completar, o apoio dos conservadores também é explicado por fatores de ordem institucional.
O novo presidente pode ser decisivo para garantir a estabilidade do governo minoritário de centro-direita liderado pelo PSD — e Seguro é, afinal, o candidato melhor posicionado para ocupar o cargo.
No regime semipresidencialista português, embora seja o primeiro-ministro quem governe, o presidente tem poderes relevantes, como vetar leis, dar posse ao primeiro-ministro e, em situações extremas, dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas — a chamada “bomba atômica”.
Por não ter maioria parlamentar, o atual governo fica mais vulnerável a eventuais tentativas de derrubá-lo além de depender do apoio — ou da abstenção — de outros partidos para aprovar seus projetos.
Em novembro, por exemplo, o Orçamento só passou graças à abstenção do PS. “Seguro pode ajudar a preservar o frágil equilíbrio do governo e pressionar o PS a se abster em momentos-chave”, diz Lisi.
Evidentemente, nada garante que os eleitores seguirão diretrizes de voto dadas por lideranças conservadoras. As tempestades que atingem Portugal também são um fator que pode influenciar o resultado da votação, reduzindo o comparecimento às urnas.
O país foi duramente atingido pelas tempestades Kristin e Leonardo, e a tempestade Marta deve chegar no sábado, trazendo chuvas intensas para o domingo.
Ventura chegou a pedir o adiamento da eleição, mas autoridades eleitorais afastaram essa possibilidade, admitindo apenas adiamentos pontuais em alguns municípios.
Agenda do Chega
Fundado em 2019 por Ventura, o Chega é hoje a segunda maior força no Parlamento português, com 60 cadeiras.
O partido cresceu com um discurso focado na rejeição à corrupção das “elites” políticas tradicionais, na defesa de políticas mais rígidas de segurança e no combate ao que classifica como imigração “descontrolada”, além de ataques a algumas minorias.
A campanha presidencial de Ventura, por exemplo, incluiu outdoors com a frase “Isto não é o Bangladesh”, dirigidos a imigrantes asiáticos.
Peças com comentários negativos sobre a comunidade cigana tiveram de ser retiradas por decisão judicial.
Entre as propostas polêmicas do Chega está a defesa da prioridade para portugueses em serviços públicos como hospitais e escolas, sintetizada no slogan “Os portugueses primeiro”.
Em julho, Ventura chegou a ler no Parlamento uma lista com nomes de crianças imigrantes que estariam, segundo ele, ocupando vagas de estudantes portugueses em escolas públicas.
A campanha de Ventura defende a prioridade para portugueses em serviços públicos como hospitais e escolas
Getty Images via BBC
O discurso do Chega tem, até agora, evitado ataques diretos a brasileiros, que somam mais de 500 mil pessoas e formam a maior comunidade de imigrantes do país.
Ventura afirma que o principal problema seria a imigração oriunda do Sul da Ásia, por envolver culturas que considera muito diferentes da portuguesa.
Há também brasileiros simpatizantes do Chega, especialmente entre aqueles atraídos por sua pauta conservadora nos costumes e mensagens de “lei e ordem”, ou alinhados politicamente ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que já declarou apoio a Ventura.
Nos últimos anos, porém, a pressão do partido ajudou a endurecer as políticas migratórias em Portugal — um movimento que afeta diretamente os brasileiros.
No ano passado, a AD se uniu ao Chega para aprovar alterações na Lei de Estrangeiros que restringiram o visto de trabalho a profissionais considerados qualificados, eliminaram a possibilidade de imigrantes solicitarem residência após entrarem no país como turistas e endureceram as regras de reagrupamento familiar.
O Parlamento também aprovou uma nova Lei da Nacionalidade, ampliando de cinco para sete anos o tempo mínimo de residência exigido de brasileiros para o pedido de nacionalidade portuguesa — proposta que, após sofrer reveses institucionais, ainda não entrou em vigor e segue em discussão.
Além desse aperto regulatório, organizações da sociedade civil também apontam um aumento de episódios de xenofobia e racismo — inclusive contra brasileiros — associado ao que consideram uma normalização do discurso contra estrangeiros na esfera pública.
Segundo um relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância, as queixas por crimes de ódio em Portugal quintuplicaram em cinco anos.
Há algumas semanas, o país prendeu 37 pessoas em uma operação contra o grupo neonazista 1143, que tem entre seus integrantes alguns apoiadores do Chega, embora não haja qualquer vínculo institucional com o partido.
Direita radical na Europa
A politização do tema da imigração é apontada por estudos como um dos principais motores do avanço da direita radical na Europa.
Em Portugal, por exemplo, o número de estrangeiros saltou de 592 mil em 2019 para mais de 1,5 milhão hoje, aumentando a pressão sobre os serviços públicos — tema amplamente explorado pelo Chega.
Outros fatores, como custo de vida, crise habitacional e rejeição à corrupção, também alimentam a desconfiança em relação às instituições democráticas, segundo analistas.
Além disso, partidos da direita radical têm se beneficiado de redes de cooperação transnacionais, aprendendo com seus pares europeus.
O Chega mantém vínculos políticos e ideológicos com o Vox, na Espanha, o Reunião Nacional, na França, e a AfD, na Alemanha.
“Ventura não inventou nada novo. As técnicas usadas para ganhar atenção e apoio, assim como o discurso anti-imigração, foram inspiradas em outros grupos europeus”, diz Magalhães.
O avanço de grupos de direita radical está mudando o mapa político europeu.
Nos últimos anos, eles ampliaram sua presença parlamentar em países como França, Alemanha e Suíça, onde já superam 20% de representação. No ano passado, também foram os mais votados nas eleições para o Parlamento Europeu na Áustria e na França.
Essa tendência de alta será colocada à prova no próximo ciclo eleitoral no continente: em 2026, haverá disputas regionais e locais na Espanha, França, Itália e Alemanha, além de eleições nacionais na Suécia, Dinamarca e Hungria.
Já neste domingo, a comunidade autônoma de Aragão, na Espanha, também vai às urnas — e pesquisas indicam que o Vox pode alcançar cerca de 16% dos votos válidos, ante pouco mais de 11% na última eleição.
No caso português, chama atenção o avanço da direita radical em um momento relativamente favorável para a economia.
Nos últimos cinco anos, o PIB do país cresceu em média 3,8% ao ano, acima dos 2,6% da União Europeia.
“A inflação está controlada, o desemprego é o mais baixo em décadas e o salário médio sobe 3% acima da inflação — mas a questão é que esse avanço não chega a todos”, diz a economista Susana Peralta, da Nova School of Business and Economics.
“A gentrificação e a alta dos preços da habitação, do aluguel e de determinados serviços pesam sobre alguns setores e regiões, que se sentem ‘deixados para trás’, o que ajuda a explicar o apoio à direita radical.”
Para a cientista política Marina Costa Lobo, muitas das preocupações que levam eleitores europeus a votarem na direita radical são legítimas, como a indignação com a corrupção e a queda da qualidade de vida.
“Em muitos casos, as pessoas têm razão em estar zangadas, embora, evidentemente, as soluções oferecidas pelos movimentos populistas de direita — como culpar a imigração por problemas complexos — estejam longe de ser adequadas”, observa.
“No fim, os partidos tradicionais precisam fazer mais para responder às preocupações dos cidadãos e melhorar o funcionamento das instituições se quiserem preservar o chamado ‘modelo europeu’.”
Eleições em Portugal aumentam avanço da extrema direita na Europa
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By Marsescritor

MARSESCRITOR tem formação em Letras, é também escritor com 10 livros publicados.