Melania nega vínculos com Epstein e diz que não foi vítima do predador sexual
Quando Melania Trump caminhou até o púlpito da Casa Branca na quinta-feira, no mesmo local onde o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia feito, pouco mais de uma semana antes, seu pronunciamento à nação sobre o Irã, não havia absolutamente nenhum indício de que aquela seria uma aparição de cair o queixo.
Havia curiosidade, sim, mas ninguém imaginava que seria algo imperdível. Nem mesmo os mais conectados à administração tiveram qualquer aviso prévio sobre o tema, segundo autoridades.
Ladeada por bandeiras dos Estados Unidos, sua primeira frase deixou os ouvintes surpresos. “As mentiras que me ligam ao vergonhoso Jeffrey Epstein precisam acabar hoje.”
Com essas palavras, a crise envolvendo Epstein que vinha assombrando o presidente voltou mais uma vez ao centro das atenções, desta vez por causa de sua esposa.
Donald e Melania Trump
Getty Images
Imediatamente, os canais de TV a cabo dos EUA interromperam sua cobertura sobre o Irã, dada a gravidade do que estava se desenrolando.
A primeira-dama sempre manteve um perfil relativamente discreto, escolhendo de forma estratégica suas poucas aparições públicas. Ela dificilmente compartilha o mesmo gosto pelo dramático — ou o desejo de chocar e impressionar a imprensa — que o marido.
Lendo um comunicado preparado, ela afirmou que nunca teve um relacionamento com Epstein ou Ghislaine Maxwell, que não foi apresentada ao marido por Epstein e que não tinha conhecimento dos crimes de Epstein.
Ela concluiu pedindo audiências públicas no Congresso para que sobreviventes de Epstein possam testemunhar e ajudar a revelar a verdade.
Se ela tivesse permanecido para responder perguntas, certamente a primeira seria: por que sentiu a necessidade agora, aparentemente do nada, de se distanciar do criminoso sexual condenado e registrar publicamente sua posição pela primeira vez?
Circularam rumores de que talvez ela estivesse tentando se antecipar a alguma novidade, já que as alegações gerais às quais ela se referiu circulam há anos e, normalmente, ela recorre a seus advogados para responder.
A jornalista investigativa Vicky Ward, que cobre Epstein há décadas, diz que o momento da coletiva é confuso.
“Acho que se Melania Trump tivesse feito isso no início da crise de Epstein, há um ano, e tivesse convocado o Congresso a registrar os depoimentos das vítimas e ouvir suas histórias, nos sentiríamos de forma bem diferente”, afirma.
O contexto das declarações dela também não faz sentido, acrescenta.
“Não há, de fato, muita coisa sobre Melania Trump nos arquivos de Epstein além daquele único e-mail, um e-mail amigável para Ghislaine Maxwell. Fico perplexa com isso. Não acho que alguém jamais tenha acreditado que ela fosse uma vítima.”
Aumentando ainda mais a intriga, o presidente Trump disse que não sabia que ela faria aquela declaração, embora um porta-voz da primeira-dama tenha dito inicialmente que ele sabia.
[bbc] Melania Trump
Reuters
A reação ao anúncio de Melania Trump foi rápida.
Várias sobreviventes entraram em contato umas com as outras, compartilhando sua incredulidade diante do que havia acabado de acontecer, e começaram a coordenar como responderiam.
Treze deles, junto com a família de Virginia Roberts Giuffre, divulgaram um comunicado afirmando que exigir mais dos sobreviventes é uma transferência de responsabilidade, não justiça.
“A primeira-dama Melania Trump agora está transferindo o ônus para os sobreviventes em condições politizadas que protegem aqueles que detêm poder: o Departamento de Justiça, as forças de segurança, os promotores e o governo Trump, que ainda não cumpriu integralmente a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein.”
Democratas continuam argumentando que o Departamento de Justiça reteve documentos demais sem justificativa adequada.
De um total de seis milhões de documentos, o Departamento de Justiça divulgou 3,5 milhões e afirmou que há limites legais para a liberação do restante.
Marina Lacerda, que tinha apenas 14 anos quando foi abusada por Epstein, conforme detalhado na acusação federal de 2019 contra o financista desonrado, foi uma das sobreviventes que assinaram o comunicado.
Mas ela foi além em um vídeo separado compartilhado nas redes sociais, criticando duramente a sugestão da primeira-dama.
“Parece que você está apenas tentando desviar a atenção de uma coisa para outra. Então, como isso beneficia a família Trump, é a minha pergunta”, disse Lacerda.
Já a sobrevivente Lisa Phillips elogiou Melania Trump por confrontar a narrativa do Departamento de Justiça de que eles estariam encerrando o capítulo dos arquivos Epstein.
Uma imagem de um e-mail enviado por Melania Trump a Ghislaine Maxwell
US Department of Justice
Phillips disse ao programa Today, da BBC Radio 4, que o apelo para que sobreviventes contem suas histórias foi um “movimento ousado”.
Mas ela também desafiou a primeira-dama a transformar palavras em ações.
“O que eu faria é confrontá-la e pressioná-la um pouco, dizendo: ‘ok, agora que você disse isso, o que pode fazer? O que pode fazer para nos ajudar? E o que pode fazer para nos fazer avançar?”
O presidente do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes, que investiga os arquivos Epstein, disse à Fox News na sexta-feira que sempre planejou realizar audiências com sobreviventes dos crimes de Epstein assim que o comitê concluir sua investigação.
“Concordo com a primeira-dama e agradeço o que ela disse”, afirmou o republicano James Comer. “Teremos audiências.”
Barry Levine, autor de The Spider: Inside the Tangled Web of Jeffrey Epstein and Ghislaine Maxwell, afirma que o fato de Melania Trump ter incluído e reconhecido as vítimas é muito significativo, porque ela escolheu ir contra a posição do marido.
Segundo ele, o presidente Trump sempre deu as costas às vítimas.
“Ele teve muitas oportunidades de dizer algo em apoio aos sobreviventes, no sentido de buscar responsabilização, e continuamente disse que os arquivos não passam de uma farsa.”
A esposa, diz Levine, é muito dona de si e fala o que pensa. “Até o próprio presidente já reconheceu isso anteriormente.”
Tammy Vigil, autora de Melania and Michelle: First Ladies in a New Era, disse à BBC que o fato de o comunicado não mencionar o marido mostra uma fissura na Casa Branca entre o presidente e a primeira-dama e entre as agendas que eles promovem.
“Ela está promovendo uma agenda que, por todas as aparências externas, ele não quer promover. Então ela está ajudando sua própria agenda. É uma declaração muito independente, e já a vimos fazer isso algumas vezes antes.”
Os democratas, por sua vez, veem isso como um presente político.
Melania Trump agora se colocou diretamente no centro da história de Epstein e se colocou em oposição ao governo, que quer encerrar a investigação.
O democrata de mais alto escalão no Comitê de Supervisão da Câmara, Robert Garcia, disse que ficou surpreso com o discurso e que o governo Trump agora precisa seguir o exemplo da primeira-dama.
“Se Melania Trump quer justiça de verdade, ela deveria pedir ao marido que divulgue o restante dos arquivos Epstein e garanta que Pam Bondi testemunhe”, afirmou.
O presidente Trump, que conviveu socialmente com Epstein nos anos 1990 e aparece muitas vezes nos arquivos, mas nega qualquer conhecimento de seus crimes, chamou a comoção em torno dos arquivos Epstein de uma farsa politicamente motivada.
Mas, desta vez, ele não pode acusar a pessoa que recolocou a história nas manchetes de ter intenções maliciosas.
Trata-se de uma crise duradoura que o governo não consegue superar, e o anúncio de Melania Trump acabou de dar novo fôlego a ela.
Quando Melania Trump caminhou até o púlpito da Casa Branca na quinta-feira, no mesmo local onde o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia feito, pouco mais de uma semana antes, seu pronunciamento à nação sobre o Irã, não havia absolutamente nenhum indício de que aquela seria uma aparição de cair o queixo.
Havia curiosidade, sim, mas ninguém imaginava que seria algo imperdível. Nem mesmo os mais conectados à administração tiveram qualquer aviso prévio sobre o tema, segundo autoridades.
Ladeada por bandeiras dos Estados Unidos, sua primeira frase deixou os ouvintes surpresos. “As mentiras que me ligam ao vergonhoso Jeffrey Epstein precisam acabar hoje.”
Com essas palavras, a crise envolvendo Epstein que vinha assombrando o presidente voltou mais uma vez ao centro das atenções, desta vez por causa de sua esposa.
Donald e Melania Trump
Getty Images
Imediatamente, os canais de TV a cabo dos EUA interromperam sua cobertura sobre o Irã, dada a gravidade do que estava se desenrolando.
A primeira-dama sempre manteve um perfil relativamente discreto, escolhendo de forma estratégica suas poucas aparições públicas. Ela dificilmente compartilha o mesmo gosto pelo dramático — ou o desejo de chocar e impressionar a imprensa — que o marido.
Lendo um comunicado preparado, ela afirmou que nunca teve um relacionamento com Epstein ou Ghislaine Maxwell, que não foi apresentada ao marido por Epstein e que não tinha conhecimento dos crimes de Epstein.
Ela concluiu pedindo audiências públicas no Congresso para que sobreviventes de Epstein possam testemunhar e ajudar a revelar a verdade.
Se ela tivesse permanecido para responder perguntas, certamente a primeira seria: por que sentiu a necessidade agora, aparentemente do nada, de se distanciar do criminoso sexual condenado e registrar publicamente sua posição pela primeira vez?
Circularam rumores de que talvez ela estivesse tentando se antecipar a alguma novidade, já que as alegações gerais às quais ela se referiu circulam há anos e, normalmente, ela recorre a seus advogados para responder.
A jornalista investigativa Vicky Ward, que cobre Epstein há décadas, diz que o momento da coletiva é confuso.
“Acho que se Melania Trump tivesse feito isso no início da crise de Epstein, há um ano, e tivesse convocado o Congresso a registrar os depoimentos das vítimas e ouvir suas histórias, nos sentiríamos de forma bem diferente”, afirma.
O contexto das declarações dela também não faz sentido, acrescenta.
“Não há, de fato, muita coisa sobre Melania Trump nos arquivos de Epstein além daquele único e-mail, um e-mail amigável para Ghislaine Maxwell. Fico perplexa com isso. Não acho que alguém jamais tenha acreditado que ela fosse uma vítima.”
Aumentando ainda mais a intriga, o presidente Trump disse que não sabia que ela faria aquela declaração, embora um porta-voz da primeira-dama tenha dito inicialmente que ele sabia.
[bbc] Melania Trump
Reuters
A reação ao anúncio de Melania Trump foi rápida.
Várias sobreviventes entraram em contato umas com as outras, compartilhando sua incredulidade diante do que havia acabado de acontecer, e começaram a coordenar como responderiam.
Treze deles, junto com a família de Virginia Roberts Giuffre, divulgaram um comunicado afirmando que exigir mais dos sobreviventes é uma transferência de responsabilidade, não justiça.
“A primeira-dama Melania Trump agora está transferindo o ônus para os sobreviventes em condições politizadas que protegem aqueles que detêm poder: o Departamento de Justiça, as forças de segurança, os promotores e o governo Trump, que ainda não cumpriu integralmente a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein.”
Democratas continuam argumentando que o Departamento de Justiça reteve documentos demais sem justificativa adequada.
De um total de seis milhões de documentos, o Departamento de Justiça divulgou 3,5 milhões e afirmou que há limites legais para a liberação do restante.
Marina Lacerda, que tinha apenas 14 anos quando foi abusada por Epstein, conforme detalhado na acusação federal de 2019 contra o financista desonrado, foi uma das sobreviventes que assinaram o comunicado.
Mas ela foi além em um vídeo separado compartilhado nas redes sociais, criticando duramente a sugestão da primeira-dama.
“Parece que você está apenas tentando desviar a atenção de uma coisa para outra. Então, como isso beneficia a família Trump, é a minha pergunta”, disse Lacerda.
Já a sobrevivente Lisa Phillips elogiou Melania Trump por confrontar a narrativa do Departamento de Justiça de que eles estariam encerrando o capítulo dos arquivos Epstein.
Uma imagem de um e-mail enviado por Melania Trump a Ghislaine Maxwell
US Department of Justice
Phillips disse ao programa Today, da BBC Radio 4, que o apelo para que sobreviventes contem suas histórias foi um “movimento ousado”.
Mas ela também desafiou a primeira-dama a transformar palavras em ações.
“O que eu faria é confrontá-la e pressioná-la um pouco, dizendo: ‘ok, agora que você disse isso, o que pode fazer? O que pode fazer para nos ajudar? E o que pode fazer para nos fazer avançar?”
O presidente do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes, que investiga os arquivos Epstein, disse à Fox News na sexta-feira que sempre planejou realizar audiências com sobreviventes dos crimes de Epstein assim que o comitê concluir sua investigação.
“Concordo com a primeira-dama e agradeço o que ela disse”, afirmou o republicano James Comer. “Teremos audiências.”
Barry Levine, autor de The Spider: Inside the Tangled Web of Jeffrey Epstein and Ghislaine Maxwell, afirma que o fato de Melania Trump ter incluído e reconhecido as vítimas é muito significativo, porque ela escolheu ir contra a posição do marido.
Segundo ele, o presidente Trump sempre deu as costas às vítimas.
“Ele teve muitas oportunidades de dizer algo em apoio aos sobreviventes, no sentido de buscar responsabilização, e continuamente disse que os arquivos não passam de uma farsa.”
A esposa, diz Levine, é muito dona de si e fala o que pensa. “Até o próprio presidente já reconheceu isso anteriormente.”
Tammy Vigil, autora de Melania and Michelle: First Ladies in a New Era, disse à BBC que o fato de o comunicado não mencionar o marido mostra uma fissura na Casa Branca entre o presidente e a primeira-dama e entre as agendas que eles promovem.
“Ela está promovendo uma agenda que, por todas as aparências externas, ele não quer promover. Então ela está ajudando sua própria agenda. É uma declaração muito independente, e já a vimos fazer isso algumas vezes antes.”
Os democratas, por sua vez, veem isso como um presente político.
Melania Trump agora se colocou diretamente no centro da história de Epstein e se colocou em oposição ao governo, que quer encerrar a investigação.
O democrata de mais alto escalão no Comitê de Supervisão da Câmara, Robert Garcia, disse que ficou surpreso com o discurso e que o governo Trump agora precisa seguir o exemplo da primeira-dama.
“Se Melania Trump quer justiça de verdade, ela deveria pedir ao marido que divulgue o restante dos arquivos Epstein e garanta que Pam Bondi testemunhe”, afirmou.
O presidente Trump, que conviveu socialmente com Epstein nos anos 1990 e aparece muitas vezes nos arquivos, mas nega qualquer conhecimento de seus crimes, chamou a comoção em torno dos arquivos Epstein de uma farsa politicamente motivada.
Mas, desta vez, ele não pode acusar a pessoa que recolocou a história nas manchetes de ter intenções maliciosas.
Trata-se de uma crise duradoura que o governo não consegue superar, e o anúncio de Melania Trump acabou de dar novo fôlego a ela.

