Trump distorce história da Guerra Mexicano-Americana para justificar postura na América Latina, acusam historiadoresTrump distorce história da Guerra Mexicano-Americana para justificar postura na América Latina, acusam historiadores
Presidente dos Estados Unidos Donald Trump
AP Photo/Alex Brandon
Historiadores e analistas acusaram o governo Trump de tentar reescrever a história dos Estados Unidos para justificar suas próprias decisões de política externa em relação à América Latina, ao divulgar uma versão “historicamente imprecisa” da Guerra Mexicano-Americana.
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Uma declaração divulgada na segunda-feira (2) pela Casa Branca, em comemoração ao aniversário do conflito, descreveu a guerra como uma “vitória lendária que garantiu o Sudoeste americano, reafirmou a soberania dos Estados Unidos e expandiu a promessa da independência americana por todo o nosso majestoso continente”. O texto traçou paralelos entre aquele período da história americana e as políticas cada vez mais agressivas do próprio governo Trump em relação à América Latina, que, segundo a nota, serviriam para “garantir que o Hemisfério permaneça seguro”.
“Guiado por nossa vitória nos campos do México há 178 anos, não poupei esforços para defender nossa fronteira sul contra a invasão, sustentar o Estado de Direito e proteger nossa pátria de forças do mal, da violência e da destruição”, afirmou a declaração, que não foi assinada.
Na publicação, a Casa Branca não menciona o papel central que a escravidão desempenhou na guerra e glorifica o período mais amplo do “Destino Manifesto”, que resultou no deslocamento de centenas de milhares de povos indígenas de suas terras.
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Críticas
Alexander Aviña, professor de história da América Latina na Universidade Estadual do Arizona, afirmou que a declaração da Casa Branca “minimiza a enorme quantidade de violência necessária para expandir” os Estados Unidos até o Oceano Pacífico, em um momento em que o governo Trump voltou a intervir nos assuntos latino-americanos de uma forma não vista há décadas — derrubando o presidente da Venezuela, interferindo em eleições e ameaçando ações militares no México e em outros países.
“Desde então, líderes políticos dos EUA veem isso como um aspecto feio da história americana. Este é um caso bastante claro de imperialismo dos Estados Unidos contra seu vizinho do sul”, disse Aviña. “O governo Trump está, na verdade, abraçando isso como algo positivo da história dos EUA e enquadrando — de forma historicamente incorreta — como se fosse uma medida defensiva para impedir o México de invadi-los.”
Na terça-feira (3), as críticas à declaração da Casa Branca se espalharam rapidamente pelas redes sociais.
Questionada sobre o comunicado durante sua coletiva de imprensa matinal, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, riu e ironizou, observando que “temos de defender a soberania”. Sheinbaum, que mantém uma relação cautelosa com o governo Trump, costuma responder ao presidente com tom equilibrado e, às vezes, com sarcasmo — como quando Trump mudou o nome do Golfo do México para Golfo da América.
Ponto sensível histórico
A Guerra Mexicano-Americana (1846–1848) foi desencadeada por disputas fronteiriças de longa data entre os Estados Unidos e o México e pela anexação do Texas pelos EUA em 1845. Nos anos anteriores ao conflito, americanos haviam se estabelecido gradualmente em territórios que então pertenciam ao México. O país havia proibido a escravidão, e abolicionistas dos EUA temiam que a apropriação dessas terras tivesse como objetivo criar novos estados escravistas.
Após o início dos combates e uma série de vitórias dos EUA, o México cedeu mais de 525 mil milhas quadradas de território — incluindo áreas que hoje formam Arizona, Califórnia, oeste do Colorado, Nevada, Novo México, Texas e Utah.
Esse episódio transformou o Texas em uma peça-chave durante a Guerra Civil dos EUA e levou o ex-presidente Ulysses S. Grant a escrever posteriormente que o conflito com o México foi “um dos mais injustos já travados por uma nação mais forte contra uma mais fraca”.
A Associated Press foi criada quando cinco jornais de Nova York financiaram uma rota de correio a cavalo pelo Alabama para levar notícias da Guerra do México — como às vezes é chamada nos EUA — mais rapidamente ao norte do que o serviço postal oficial.
A guerra continua sendo um ponto sensível na relação entre os dois países, especialmente porque Sheinbaum frequentemente lembra Trump de que o México é uma nação soberana sempre que ele cogita abertamente uma ação militar contra cartéis mexicanos e pressiona o país a se submeter à sua vontade.
Reescrevendo a história
A declaração da Casa Branca se insere em um padrão mais amplo de ações do governo Trump para moldar a linguagem do governo federal à sua própria ideologia, disse Albert Camarillo, professor de história da Universidade Stanford, que descreveu o texto como uma versão “distorcida, não histórica e imperialista” da guerra.
Aviña afirmou que o comunicado serve “para afirmar, retoricamente, que os Estados Unidos estão justificados em impor sua chamada política de ‘América Primeiro’ em todo o continente americano”, independentemente da precisão histórica.
O governo Trump ordenou a reescrita de conteúdos históricos exibidos no Instituto Smithsonian, alegando estar “restaurando a verdade e a sanidade à história americana”.
A administração também removeu de sites do governo registros históricos, documentos legais e dados que considera indesejáveis. Trump ainda determinou que fossem retiradas referências que “inapropriadamente difamem americanos, do passado ou do presente”, incluindo menções à escravidão, à destruição das culturas indígenas e às mudanças climáticas.
“Essa declaração é consistente com tantas outras que tentam embranquecer e reformular a história dos Estados Unidos e apagar gerações de pesquisa histórica”, concluiu Camarillo.

By Marsescritor

MARSESCRITOR tem formação em Letras, é também escritor com 10 livros publicados.