Trump continua investida contra o Papa e contra a OTAN
Não é incomum que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrente críticas de líderes católicos.
As suas políticas linha dura de imigração, prometidas durante a campanha e celebradas por apoiadores, têm provocado condenação por parte de líderes da Igreja.
Há meses, isso coloca a hierarquia da Igreja Católica nos EUA em desacordo com católicos de base mais alinhados à direita.
Mas a ampla reação negativa nos últimos dias, desencadeada pelo ataque do presidente americano ao papa Leão 14 no domingo (12) e pela divulgação de uma imagem gerada por inteligência artificial (IA), na qual Trump aparece como uma figura semelhante a Cristo, com luz irradiando de suas mãos, é de outra natureza.
O que chama a atenção é a origem de parte dessas críticas: aliados católicos conservadores e leais.
Eles estão insatisfeitos não apenas com o atrito público de Trump com o papa Leão 14, mas, em um nível mais profundo, com a guerra contra o Irã.
A repercussão do longo ataque de Trump nas redes sociais ao primeiro papa americano, descrito como liberal demais e “brando com o crime”, somada à imagem gerada por inteligência artificial, consolidou uma mudança de opinião entre muitos católicos conservadores desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.
“Rezo para que tudo isso deixe claro às pessoas que não buscamos um líder nacional, não buscamos aqueles que têm mais dinheiro ou mais armas. Buscamos Cristo”, afirmou o bispo Joseph Strickland.
As palavras vêm de um homem que, ainda no ano passado, participou de um evento de oração para “consagrar” a residência do presidente em Mar-a-Lago, na Flórida.
Em 2024, Strickland fez o discurso principal na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), maior evento conservador dos EUA, onde Trump foi o convidado de honra. Em 2020, discursou em uma marcha de apoiadores de Trump que pediam a reversão do resultado das eleições.
Ele tem sido um apoiador leal de Donald Trump, nos bons e maus momentos. De fato, seu alinhamento político explícito e o confronto aberto com o falecido papa Francisco (1936-2025) contribuíram para sua destituição do cargo de bispo da cidade de Tyler, no Texas.
Ainda assim, diante de narrativas fortemente divergentes entre os EUA e o Vaticano sobre a guerra no Irã e o cenário mais amplo do Oriente Médio, Strickland fez um raro rompimento com o governo.
“Não acredito que este conflito atenda aos critérios de uma guerra justa. Estou com o papa e seu apelo pela paz. Não se trata de política. Trata-se de verdade moral”, disse à BBC, acrescentando que a escala de mortes e sofrimento enfrentados por civis inocentes impede que a guerra seja considerada “justa”.
Mais do que isso, ele criticou a forma como os EUA conduzem o conflito e incentivou outros católicos a fazer o mesmo.
“Tudo se torna muito sombrio quando a religião é usada para justificar comportamentos imorais… usar a religião para justificar, especialmente, o lançamento de bombas contradiz aquilo que a fé representa”, afirmou Strickland.
Ao ser questionado sobre o ataque de Trump ao papa Leão 14 e sobre a imagem que alguns chamaram de “Jesus de IA”, que Trump afirmou ter interpretado como sendo um médico, e não Jesus, Strickland disse que sentiu ser seu “dever” lembrar o presidente americano do Evangelho segundo Mateus. Ele citou uma passagem que ensina que o poder supremo pertence a Cristo, e não a qualquer homem.
“Quando líderes mundiais esquecem essa verdade, todos correm perigo”, afirmou.
Essa mudança na forma como católicos conservadores veem o presidente dos EUA traz riscos políticos, já que ele ampliou seu apoio entre esse grupo na eleição de 2024.
Segundo o centro de pesquisa Pew Research Center, o quadro continua complexo. A origem racial teve papel relevante: 62% dos católicos brancos votaram em Donald Trump (Partido Republicano) e 37% em Kamala Harris (Partido Democrata), enquanto 41% dos católicos hispânicos votaram em Trump e 58% em Harris.
Ainda assim, houve uma tendência geral de aproximação dos católicos com o Partido Republicano do qual Trump faz parte, embora com divisões acentuadas.
Historicamente, os dados sugerem que, quando se trata de visão de mundo, a política pesa mais do que a fé para muitos católicos americanos. Eles se dividem, em grande medida, segundo linhas partidárias, afirma Greg Smith, diretor associado sênior de pesquisa em religião do Pew Research Center.
Os católicos nos EUA têm grupos que sustentam posições altamente polarizadas em temas como aborto e imigração. Por isso, uma convergência como essa entre católicos de esquerda e de direita em torno da guerra no Irã é rara.
A forma como avaliam o chefe da Igreja Católica reforça esse quadro. O papa Francisco era muito mais popular entre democratas católicos do que entre republicanos católicos, enquanto o papa Leão 14 conta com alto apoio de ambos, segundo o Pew Research Center.
O papa Francisco era frequentemente visto como um progressista espontâneo, que por vezes afastava católicos tradicionalistas, por exemplo, ao restringir a missa em latim, medida que o papa Leão 14 flexibilizou.
O papa não está imune a certo nível de crítica, disse Peter Wolfgang, diretor executivo do Family Institute of Connecticut e uma voz influente da “direita” católica nos EUA.
“O papa é o papa, devemos a ele um certo grau de deferência, mas não acho que o catolicismo exija a obediência de cadáveres. Nós somos pessoas vivas, capazes de pensar”, afirmou.
Wolfgang passou de um pragmatismo cauteloso em relação a Trump, interessado na revogação das leis sobre o aborto, para um apoio mais entusiasmado. É um forte defensor das políticas de deportação em massa e do tipo de nacionalismo católico representado por J.D. Vance. Ainda assim, agora faz duras críticas ao comportamento do presidente dos EUA em relação ao papa Leão 14.
“O presidente Trump não entende como funciona o catolicismo. O papa não é apenas um chefe de Estado, ele é o Vigário de Cristo. Ataques contra ele são recebidos como ataques à própria Igreja. Quanto mais ele atacar o papa, mais seu apoio entre eleitores católicos vai cair”, disse Wolfgang à BBC.
Wolfgang também afirmou que a sua fé o levou a contestar bispos católicos dos EUA quando criticaram as políticas de imigração do presidente Trump, mas que essa mesma fé o faz se opor a esta guerra.
“Quando o presidente Trump sai por aí falando em acabar com a civilização iraniana, ou o secretário [Pete] Hegseth faz uma oração sanguinária que é irreconhecível para os católicos, então é completamente natural que católicos conservadores se alinhem ao papa Leão 14”, afirmou.
Pouco depois dos primeiros ataques dos EUA e de Israel ao Irã, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, recitou uma oração altamente controversa em um culto no Pentágono, na qual falava em “violência esmagadora” e “justiça executada de forma rápida e sem remorso”.
Em seus textos, Wolfgang costuma reservar suas críticas mais duras à “esquerda” católica, mas avalia que a questão do Irã, em certa medida, uniu diferentes grupos, em parte pela clareza da mensagem anti-guerra do papa.
De forma incomum, nenhum membro sênior do clero católico nos EUA declarou publicamente apoio à guerra no Irã. Até mesmo Robert Barron, bispo de Winona-Rochester e aliado importante de Trump, exigiu que o presidente americano pedisse desculpas ao papa por seu ataque furioso, um pedido que foi rejeitado.
Posicionado na ala liberal da Igreja Católica, Steven Greydanus, diácono e comentarista de destaque, também vê essa convergência incomum de opiniões.
Ele avalia que um dos fatores foi a “subversão”, pelos EUA, dos princípios da “Teoria da guerra justa” (bellum iustum), uma doutrina que estabelece quando é legítimo entrar em guerra e como esse conflito deve ser conduzido.
Mas diz que isso também se deve, em parte, ao contraste entre o presidente Donald Trump e a “presença conciliadora” do papa Leão 14.
“Embora eu me entristeça com a contundência dos ataques de Donald Trump ao papa Leão 14, de certa forma acolho a clareza da escolha que está sendo apresentada aos católicos”, afirma Greydanus.
O Vaticano tem mantido a interpretação de que o que se desenrolou nas últimas semanas não é, de forma alguma, um embate entre o papa Leão 14 e o presidente Donald Trump, mas sim um papa que recorre claramente à sua fé para se opor à lógica desta guerra.
Mas, quando o presidente afirmou que “toda uma civilização morreria” no Irã, o papa respondeu diretamente, classificando a ameaça como “absolutamente inaceitável”.
“Há uma diferença importante entre desafiar um homem e questionar o princípio que torna a guerra possível”, afirmou o reverendo Antonio Spadaro, subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano.
O reverendo Spadaro disse à BBC que, embora haja diálogo nos bastidores em “centros de poder”, o papa também precisa fazer declarações públicas contra o conflito para “delimitar o limite moral” do que é aceitável.
Então, qual é a visão a partir da Cidade do Vaticano sobre uma possível convergência entre católicos dos EUA, de esquerda e de direita, no apoio à mensagem anti-guerra do papa Leão 14?
“Ele não une a todos, é claro”, diz o reverendo Spadaro. “Mas o papa Leão 14 desloca o debate católico para longe de uma lógica puramente partidária.”
Há questionamentos sobre por que o presidente Donald Trump publicaria uma imagem gerada por inteligência artificial que certamente alienaria e ofenderia parte de seus apoiadores. De forma incomum, ele acabou recuando e apagando a postagem.
Também há dúvidas sobre o motivo do ataque ao papa Leão 14. Para alguns, parecia uma tentativa de enfraquecer a oposição do pontífice à guerra.
“Mas, ao tentar deslegitimar, o ataque de Trump reconhece implicitamente o peso da voz moral do papa”, afirma o reverendo Spadaro, do Vaticano.
“Se Leão 14 fosse irrelevante, não mereceria uma palavra. Em vez disso, é citado, nomeado, contestado; sinal de que suas palavras importam.”

By Marsescritor

MARSESCRITOR tem formação em Letras, é também escritor com 10 livros publicados.