Em uma declaração que trouxe novos contornos à compreensão dos bastidores do Vaticano, o cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, afirmou que o conclave de 2013, responsável pela eleição do Papa Francisco, transcorreu em um clima de tranquilidade e respeito mútuo, sem a existência de campanhas organizadas ou articulações políticas prévias entre os cardeais eleitores. A afirmação, feita durante um encontro recente com jornalistas, oferece uma perspectiva interna rara sobre um dos procedimentos mais secretos e solenes da Igreja Católica.
Segundo Dom Scherer, a ausência de campanhas explícitas não significa falta de diálogo ou discernimento. "Há um grande respeito pela liberdade de voto de cada cardeal. As conversas são informais e visam conhecer o perfil do próximo Papa, não fazer campanha para ninguém", explicou. Esta visão contrasta fortemente com a narrativa frequentemente veiculada pela imprensa internacional, que costuma tratar o conclave como um campo de batalha política entre alas progressistas e conservadoras. Para o cardeal, o Espírito Santo desempenha um papel central na condução das escolhas, um princípio teológico fundamental que guia a consciência de cada eleitor.
O conclave de 2013 entrou para a história não apenas pela rapidez — durou apenas dois dias e cinco escrutínios — mas pela surpresa global com a eleição do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio. Poucos nomes eram tão cotados quanto o seu, o que, para Dom Odilo, é uma prova cabal de que não havia uma candidatura orquestrada. "Se houvesse uma campanha organizada, o resultado provavelmente não teria sido aquele. A escolha do Papa Francisco foi uma verdadeira manifestação de liberdade e discernimento coletivo", ponderou o arcebispo.
Dom Odilo Scherer, gaúcho de Cerro Largo, foi nomeado arcebispo de São Paulo pelo Papa Bento XVI em 2007 e elevado ao posto de cardeal no mesmo ano. Sua participação ativa no conclave de 2013 lhe confere autoridade para falar sobre o assunto. Conhecido por sua linha teológica moderada e forte atuação pastoral, ele é uma das figuras mais influentes da Igreja no Brasil, sendo frequentemente consultado sobre temas doutrinários e administrativos. O Observando o Mundo acompanha de perto as declarações de líderes religiosos, com análises aprofundadas em nossa seção Mundo.
A fala do cardeal paulistano ajuda a desmistificar a ideia de que o conclave é um ambiente de intensa barganha política. Embora existam naturalmente visões distintas entre os cardeais sobre o futuro da Igreja, o procedimento é rigorosamente desenhado para isolar os eleitores do mundo exterior e promover uma eleição baseada na consciência de cada um, sob o olhar atento da tradição e da oração. A ausência de campanhas não significa ausência de debate, mas sim um debate elevado, focado no bem da Igreja universal e não em interesses particulares ou regionais.
A paz e a harmonia descritas por Dom Odilo Scherer nos bastidores do conclave contrastam com a ansiedade global que toma conta do mundo durante o período sede vacante. Sua fala reforça a crença na condução divina do processo e na maturidade do Colégio Cardinalício em tomar uma decisão colegiada. Para o público brasileiro, ouvir essa avaliação de um de seus mais proeminentes cardeais é um motivo de orgulho e uma oportunidade de compreender melhor os mecanismos que regem uma das instituições mais antigas e influentes do planeta.