A metáfora de um edifício em demolição captura com exatidão o estado da relação transatlântica depois de doze meses de políticas trumpistas que abalaram os alicerces da parceria. O que antes era considerado um pilar da ordem global agora balança com rachaduras profundas que vão da economia à segurança coletiva. Líderes europeus, que há um ano ainda ensaiavam um discurso de “esperança” no retorno de Trump à Casa Branca, hoje usam termos como “divórcio estratégico” e “autonomia necessária”.
A imagem do edifício em ruínas não é exagero retórico. Em 2025, o governo Trump impôs tarifas que atingiram setores inteiros da indústria europeia, exigiu que os membros da OTAN elevassem gastos militares a níveis considerados impraticáveis e retirou os EUA de acordos multilaterais essenciais para o bloco europeu. Cada uma dessas ações funcionou como uma marreta nos pilares que sustentavam a aliança pós-Guerra Fria.
Tarifas e a erosão da confiança econômica
Logo nos primeiros meses de 2025, Trump assinou ordens executivas que sobretaxaram em 25% produtos siderúrgicos, automotivos e farmacêuticos provenientes da União Europeia. A justificativa de “proteção da indústria americana” não convenceu Bruxelas, que respondeu com tarifas retaliatórias sobre uísque bourbon, motocicletas e produtos de luxo. O resultado foi uma guerra comercial que encareceu insumos dos dois lados do Atlântico e reduziu a previsibilidade para investidores.
Para economistas europeus, o impacto foi imediato: a Alemanha, maior exportadora do bloco, viu seu PIB industrial encolher 0,8% no primeiro semestre de 2025. Empresas como Volkswagen e BASF anunciaram cortes de produção e transferência de parte de suas linhas para o sudeste asiático. “Não se trata apenas de tarifas, mas da ausência de um canal confiável de negociação”, afirmou o ministro da Economia alemão em entrevista coletiva. A confiança, que já vinha abalada desde o primeiro mandato de Trump, desmoronou de vez.
Defesa: o fim do guarda-chuva americano?
Na área de segurança, a exigência de Trump de que os países da OTAN elevassem seus gastos para 5% do PIB foi recebida com incredulidade em capitais europeias. Atualmente, apenas alguns membros atingem 2%, e a meta de 5% foi considerada “inviável” pelo ministro da Defesa francês. Para pressionar, Trump ameaçou retirar tropas americanas da Europa Oriental e reduzir a participação dos EUA em exercícios militares conjuntos.
A França e a Alemanha reagiram acelerando projetos de defesa autônoma, como o sistema de defesa aérea europeu e a Força de Resposta Rápida da UE. “Precisamos de um guarda-chuva que não feche quando começar a chover”, declarou o presidente francês em um discurso ao Parlamento Europeu. Embora a OTAN ainda exista formalmente, o sentimento entre diplomatas é o de que a aliança entrou em um estado de “hibernação forçada”.
Diplomacia e multilateralismo em xeque
A decisão de Trump de retirar os EUA do Acordo de Paris pela segunda vez e de bloquear a entrada de novos membros na Organização Mundial do Comércio foi vista como um abandono deliberado da ordem multilateral que a Europa ajudou a construir. Em contrapartida, a UE intensificou acordos comerciais com Mercosul, Japão e Índia, e passou a defender uma reforma da OMC sem a liderança americana.
O isolacionismo americano também se refletiu na política externa: Trump reduziu a ajuda humanitária e se recusou a coordenar sanções contra a Rússia, gerando racha dentro do G7. A Europa, que historicamente seguia a liderança de Washington em temas como direitos humanos e não proliferação, começou a articular posições próprias em fóruns internacionais. “Os EUA deixaram de ser o farol da democracia liberal; agora são um imprevisível parceiro comercial”, escreveu o jornal britânico The Guardian.
Europa busca autonomia estratégica
Diante da percepção de que Washington não é mais um aliado confiável, líderes europeus começaram a articular uma política externa e de defesa mais independente. A chamada “autonomia estratégica” deixou de ser um conceito abstrato para se tornar diretriz concreta: a UE criou um fundo de defesa de € 200 bilhões e iniciou a padronização de equipamentos militares entre os estados-membros.
No front econômico, o bloco europeu passou a diversificar suas cadeias de suprimento, reduzindo a dependência de insumos americanos e chineses. O Banco Central Europeu também sinalizou que pode aumentar suas reservas em moedas não americanas como proteção contra a volatilidade do dólar. “Não estamos nos desligando dos EUA, mas construindo uma fundação própria para que a parceria, se um dia for retomada, aconteça em pé de igualdade”, explicou a presidente da Comissão Europeia.
O que esperar dos próximos anos?
Analistas apontam que o cenário atual não tem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. A aliança transatlântica, embora ainda viva, está em estado de choque. As eleições de meio de mandato nos EUA em 2026 podem alterar a correlação de forças no Congresso, mas mesmo uma vitória democrata dificilmente reverteria a erosão da confiança em curto prazo.
Enquanto isso, a Europa se prepara para um mundo menos centrado nos EUA. O fortalecimento do euro, a integração militar e a ampliação de acordos com outros blocos são medidas que indicam uma nova postura. Se o edifício da aliança não for completamente demolido, ele certamente passará por uma reforma estrutural profunda. A pergunta que fica é se os alicerces ainda são fortes o suficiente para sustentar uma reconstrução.
Perguntas frequentes sobre a aliança Europa-EUA
A aliança entre Europa e EUA pode acabar completamente?
Embora a relação esteja severamente abalada, uma ruptura total é improvável. Os laços históricos, econômicos e culturais são profundos, e ambos os lados têm interesse em manter canais de diálogo abertos. No entanto, o modelo de subordinação estratégica que vigorou por décadas provavelmente não se repetirá.
Como as tarifas de Trump afetam o cidadão europeu?
As tarifas encarecem produtos importados dos EUA e afetam indústrias que empregam milhões de europeus. Além disso, a incerteza comercial reduz investimentos e pode levar ao aumento do desemprego em setores exportadores. O consumidor final sente no bolso o preço mais alto de bens como automóveis e medicamentos.
A Europa pode se defender sem os EUA?
A curto prazo, ainda há dependência de inteligência e equipamentos americanos. Mas os investimentos em defesa autônoma, como o sistema de defesa aérea e a Força de Resposta Rápida, indicam que a Europa está construindo capacidade própria. A transição, no entanto, levará de cinco a dez anos para ser plenamente operacional.
O que significa “autonomia estratégica”?
É a capacidade da União Europeia de agir de forma independente em política externa, defesa e economia, sem depender da liderança ou permissão dos EUA. Inclui desde a criação de um exército conjunto até a emissão de títulos em euro para financiar projetos estratégicos.