Há promessas que ficam suspensas no ar, como o cheiro de bolo de fubá que nunca saiu do forno. 1975 foi um desses anos de promessas ternas, feitas com a voz cansada de uma mãe que queria dar o mundo, mas tinha só as mãos. Lembro que ela prometeu uma boneca de louça para o Natal. Não veio. Prometeu que no ano seguinte a gente iria visitar a vovó no interior. A visita, quando aconteceu, já era tarde demais.
Não escrevo para cobrar. Escrevo para entender como o amor se desdobra em planos e, muitas vezes, a vida os empurra para o rascunho. Mamãe prometeu tanto que, por muito tempo, achei que prometer fosse o verbo principal do amor materno. Depois, cresci e descobri que o amor verdadeiro não está na promessa, mas na intenção que a gerou.
1975 foi um ano de milagre econômico no Brasil, de esperanças de modernidade, mas, dentro de casa, o milagre era fazer o dinheiro render até o fim do mês. As promessas não cumpridas não eram falta de vontade; eram sobras de um cansaço imenso, da luta diária para colocar comida na mesa e manter os filhos vestidos. Mamãe prometeu uma festa de aniversário com palhaço. Não teve. Prometeu que o vestido novo seria para a Páscoa. A Páscoa veio e foi embora sem ele.
Hoje, quando ouço o eco dessas promessas, não sinto falta do objeto prometido. Sinto a textura da memória. 1975 ficou gravado não pelo que se realizou, mas pelo afeto que se tentou realizar. A lição que ficou foi a da doçura das promessas, mesmo as que o tempo levou. Afinal, prometer é também uma forma de sonhar junto. E sonhar, minha mãe sempre soube fazer, mesmo quando a realidade não permitia.
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