Como andaimes de bambu contribuiram para o incendio mais mortal em decadas em Hong Kong

Os bombeiros de Hong Kong concluiram nesta quarta-feira (3) as buscas dentro dos sete arranha-ceus que foram engolidos pelas chamas de um incendio historico na semana passada. O numero de mortos do incendio mais letal da historia do territorio aumentou para 159, afirmou a policia de Hong Kong.

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O governo de Hong Kong havia informado na terca que as buscas nos dois edificios restantes, os dois mais danificados, poderia pode levar semanas. Na varredura, os bombeiros encontraram corpos de moradores do condominio Wang Fuk Court nas escadas e proximos ao telhado.

Agora, as equipes de resgate buscarao por novos cadaveres sob os escombros, segundo a policia. Ainda ha 31 pessoas desaparecidas ate a ultima atualizacao desta reportagem. Alguns dos corpos estao carbonizados e outros foram reduzidos a cinzas, segundo as autoridades.

“Queremos muito, se ainda houver corpos no local, que possamos os recuperar o mais rapido possivel para que a familia sobrevivente possa se despedir pela ultima vez”, disse o comissario de policia Chow Yat-ming em uma coletiva de imprensa na quarta-feira.

O governo tambem anunciou a prisao de outras tres pessoas com possiveis ligacoes ao incendio, que se tornou o mais letal da historia do territorio. Com isso, o total de presos ate o momento subiu para 18.

A policia revelou que as vitimas do incendio tinham entre um e 97 anos, com base nos 140 corpos identificados ate o momento. Desses cadaveres, 91 sao mulheres e 49, homens.

Buque de flores e colocado no local do incendio no conjunto habitacional Wang Fuk Court, em Tai Po, Hong Kong, em homenagem as vitimas

Reuters/Tyrone Siu

O incendio tomou o noticiario mundial na semana passada e, por conta das proporcoes que tomou, demorou cerca de 48 horas para ser extinto, mesmo com o trabalho continuo dos bombeiros para combater as chamas. (Leia mais abaixo)

O chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, anunciou na terca-feira a criacao de um comite independente liderado por um juiz para investigar a causa do incendio e as reformas que estavam sendo conduzidas nos edificios —apontadas como responsaveis por alastrar rapidamente o fogo.

Em meio as investigacoes, o Departamento do Trabalho de Hong Kong disse que os moradores do condominio de arranha-ceus foram informados pela prefeitura em 2024 que havia um baixo risco de incendio no local. O comunicado ocorreu apos moradores do Wang Fuk Court terem feito reclamacoes e expressado preocupacao sobre um risco de incendio potencializado pela reforma. (Leia mais abaixo)

Moradores alertaram em 2024 sobre riscos de incendio

Video mostra momento em que complexo de arranha-ceus pega fogo em Hong Kong

Moradores do Wang Fuk Court foram informados pelas autoridades no ano passado de que enfrentavam “riscos de incendio relativamente baixos” apos reclamarem dos perigos causados pelas reformas, informou o Departamento do Trabalho da cidade.

Os moradores levantaram preocupacoes em setembro de 2024, inclusive sobre a possivel inflamabilidade da tela usada pelos empreiteiros para cobrir os andaimes de bambu, disse um porta-voz do departamento.

Testes realizados em varias amostras da tela nos predios no momento do incendio nao estavam de acordo com os padroes de retardamento de fogo, disseram autoridades que supervisionam as investigacoes em uma coletiva na segunda-feira.

Os empreiteiros que realizaram as reformas utilizaram esses materiais fora do padrao em areas de dificil acesso, escondendo-os, na pratica, dos inspetores, acrescentaram as autoridades.

As autoridades tambem disseram que a espuma isolante usada pelos empreiteiros para cobrir janelas tambem alimentou as chamas e que os alarmes de incendio do complexo nao estavam funcionando corretamente.

Milhares de moradores da cidade prestaram tributo as vitimas, que incluem nove trabalhadores domesticos da Indonesia e um das Filipinas.

O incendio

Incendio de grandes proporcoes atinge conjunto de arranha-ceus em Hong Kong em 26 de novembro de 2025.

Yan Zhao/AFP

O complexo, localizado no distrito de Tai Po, possui cerca de dois mil apartamentos e abriga cerca de 4,6 mil moradores, segundo um censo realizado pelo governo em 2021. Cada uma das oito torres tem mais de 30 andares.

O Departamento de Bombeiros disse ter recebido o chamado as 3h51 no horario de Brasilia (14h51, no horario local) sobre o incendio. Centenas de agentes foram mobilizados.

Horas apos o inicio do combate as chamas, a pasta elevou o alerta para o nivel 5, o mais alto da escala. Outros mil policiais foram mobilizados, segundo o governo.

A causa do incendio esta sendo investigada, mas as autoridades acreditam que o fogo se espalhou rapidamente por telas de construcao verdes e andaimes de bambu que estavam sendo usados em obras de reforma.

As doacoes para os sobreviventes atingiram 900 milhoes de dolares de Hong Kong (R$ 618 milhoes) ate segunda-feira, segundo as autoridades, enquanto um fluxo constante de pessoas depositava flores, cartoes e homenagens em um memorial improvisado perto do bloco de edificios destruidos.

O Departamento de Transportes de Hong Kong informou que, devido ao incendio, uma secao inteira da rodovia Tai Po foi fechada, e linhas de onibus foram desviadas.

A policia chegou a isolar dois quarteiroes vizinhos ao condominio de predios por conta do incendio, que depois foram liberados.

Hong Kong tem historico de incendios graves. O ultimo de grande impacto ocorreu em 1996, quando 41 pessoas morreram apos um fogo causado por soldagem durante reformas internas. O episodio levou a mudancas nas regras de construcao e seguranca contra incendios em predios altos.

O uso de andaimes de bambu — tradicional na arquitetura chinesa e ainda comum em Hong Kong — esta sendo reduzido apos 22 mortes envolvendo trabalhadores entre 2019 e 2024. Pelo menos tres incendios com esse tipo de estrutura foram registrados neste ano, segundo uma associacao de vitimas de acidentes industriais.

Homem reage a incendio em conjunto de arranha-ceus em Hong Kong em 26 de novembro de 2025.

REUTERS/Tyrone Siu

Veja onde ocorreu incendio de grandes proporcoes em Hong Kong em 26 de novembro de 2025.

Veronica Medeiros/arte g1

Incendio de grandes proporcoes atinge conjunto de arranha-ceus em Hong Kong em 26 de novembro de 2025.

REUTERS/Tyrone Siu

Incendio de grandes proporcoes atinge conjunto de arranha-ceus em Hong Kong em 26 de novembro de 2025.

REUTERS/Tyrone Siu