As intervenções dos Estados Unidos na América Latina são um capítulo fundamental da história do continente. Ao longo dos séculos XIX, XX e XXI, a política externa norte-americana moldou profundamente o destino de nações inteiras, alternando entre intervenções militares diretas, apoio a golpes de Estado, coerção econômica e influência política e cultural.
Século XIX e a Doutrina Monroe. A base ideológica para as intervenções foi lançada em 1823 com a Doutrina Monroe ("América para os americanos"), que estabeleceu a hegemonia dos EUA no Hemisfério Ocidental. No final do século, a Guerra Hispano-Americana (1898) resultou na ocupação de Cuba, Porto Rico e Filipinas. O Corolário Roosevelt (1904) expandiu a doutrina, justificando intervenções na América Central e no Caribe para "estabilizar" nações.
Guerra Fria e Doutrina de Segurança Nacional. Durante a Guerra Fria, a luta contra o comunismo dominou a política dos EUA na região. Os exemplos mais marcantes incluem o golpe na Guatemala (1954) contra Jacobo Árbenz, a fracassada invasão da Baía dos Porcos em Cuba (1961), a intervenção na República Dominicana (1965), o apoio ao golpe militar no Chile (1973) que derrubou Salvador Allende, e o financiamento dos Contras na Nicarágua (1980s). A Escola das Américas treinou milhares de militares latino-americanos em táticas de contra-insurgência, frequentemente associadas a violações de direitos humanos.
Intervenções no pós-Guerra Fria e século XXI. Com o fim da Guerra Fria, as intervenções mudaram de forma. O Plano Colômbia (a partir de 2000) foi justificado pela "guerra às drogas". O apoio a golpes "institucionais" ou "brandos", como em Honduras (2009) e as tentativas na Bolívia (2019) e Equador, são vistos como novas modalidades. Mais recentemente, as sanções econômicas contra a Venezuela e a pressão diplomática sobre governos de esquerda marcam a atuação de Washington na região.
O debate sobre as intervenções permanece central nas relações hemisféricas. Enquanto os EUA justificam suas ações em nome da democracia, segurança e desenvolvimento, a América Latina frequentemente as vê como violações da soberania nacional. O legado dessas intervenções é uma complexa teia de desconfiança e resistência que continua a moldar a política contemporânea.